terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"As vezes é melhor estar na escuridão do que cegar-se com a luz"

Ontem estava a ler uma fanfic* e a autora usou uma frase que não sei se é própria ou citação de outro autor, na verdade não achei referência, mas enfim, a frase é mais ou menos a seguinte:
"As vezes é melhor estar na escuridão do que cegar-se com a luz"
Essa frase tinha um contexto legal na história, que é um tanto dramática e infindável, mas ela tem ainda mais sentido em nossa vida.
Não que eu acho que devemos nos manter na escuridão, não, eu não acho isso, mas as vezes a verdade nos cega tanto quanto a escuridão da omissão.
Quem me conhece sabe que tenho muito interesse em conhecer e ajudar crianças especiais e suas famílias, busco sempre algo que me traga "luz" sobre o assunto, um tanto disso se deve ao fato de eu ter tido dois irmãos especiais e hoje não tê-los mais, e por esse interesse sempre que posso compro livros que falem sobre isso e neste domingo encontrei um livro que eu ainda não sei se é ficcional ou um relato, mas que é profunda e dolorosamente honesto.
Quem realmente procura sobre crianças especiais, quem procura com profundidade saindo do universo raso e poético da mídia se depara com pais honestos que sinceramente sabem da luta diária que é ter um filho especial, das batalhas, dos sofrimentos, dos "fins do mundo" e não, não são profundamente agradecidos por os terem, os amam com tudo, tudo realmente que tem, mas se pudessem escolher, pelo bem dos filhos e deles próprios, pediriam aos céus que os filhos fossem "normais".
Essa, dentro do que me abate, é a luz que me cega.
É tão comum ouvir nas redes sociais, na mídia sobre uma situação tão floriada e tão perfeita que chega a ser ridiculamente cômica pra quem honestamente convive com as dificuldades diárias, com o sobe e desce que geralmente é ter uma criança especial.
Eu tive dois irmãos especiais e sei que meus pais dariam a vida por eles, o amor que eles tinham e ainda têm por eles é tão grande que imagino ser comparado apenas com o de Deus a nós, mas amar não é ser feliz 24h, não é achar tudo lindo, amar é se decidir por amar e fazer das tripas um coração latente.
É chorar escondido, é, apesar da vergonha das crises de histeria estar e levar o filho pra todos os lugares porque maior que a vergonha é o amor.
Como em outro livro que li, este ficcional realmente, em que o personagem que sofria de uma severa deformação facial contava o ponto de vista dele diante das situações vividos por ele na sociedade, havia dele também o ponto de vista de outros personagens em relação ao personagem principal, era bonito? Era confortador? Caloroso? NÃO, mas era real, dilaceradamente real.
Outro sinônimo, pra mim pelo menos, de verdade é dilaceração.
Tenho me encontrada dilacerada ultimamente, dilacerada pela verdade que envolve os outros e diretamente a mim.
Tenho me mantido distante pra conseguir enxergar e pensar melhor e depois disso peso se vale a pena voltar e fazer parte de tudo aquilo, a resposta frequente tem sido que não vale mais a pena.
Outras vezes, porém, sei que não há outro lugar pra ir, só posso fazer isso, mesmo que a verdade seja intensamente diferente do que a mídia me ensinou a acreditar, sempre fui atraída pela verdade, mesmo que esta me cegasse.
Sempre achei muito mais válida a verdade de ser quem é do que a grandiosidade de ser um personagem aplaudido.
Hoje, talvez me encontre cega pelas verdades que encontrei, mas sempre achei que num mundo onde se fosse cego da visão as pessoas seriam realmente amadas pelo que são e não pelo que aparentam, que num mundo não víssemos poderíamos amar o deformado, o deficiente, o magro, o baixo, o alto, o loiro, o negro, o amarelo pelo que são por dentro e não por fora.
Estar na escuridão é sempre mais confortante, mais comodo, estar na escuridão, no fanatismo, na total e obsoleta dependência onde se exclui totalmente a culpa e o empenho de realizar as coisas, é mais fácil, é totalmente menos dolorido, mas é tão estupido, tão medroso.
Prefiro ser cega pela verdade e agir de modo como uma cega muitas vezes e estar cheia e completamente inteira da verdade no meu coração, na minha história, nas minhas ações.



*Fanfics são histórias escritas e publicadas na internet, a FANfic, geralmente se usa de personagens famosos, usando ou não fatos reais sobre a pessoa, mas a envolvendo em uma história ficcional com outros personagens, Fics, geralmente, são apenas histórias com personagens quaisquer. Esse tipo de história usa de linguagem, termos e modo de escrita próprios, como por exemplo o P.O.V. que nada mais é que o "point of view" - ponto de vista - de quem conta a história em determinado momento.

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